Carlos Seggato, um histórico geração 70 pato-branquense foi um dos grandes amigos de Udir "Baru" Cantu (direita da imagem) que faria 80 anos neste 16/09/2016.

"EL VIEJO

Parece que foi ontem, nossos encontros diários no bar do Kiko: 6 horas da tarde, ficávamos a esperar pois sabíamos que dali a pouco o Monza Hatch encostará e a alegria, então, era certeza.

Para começar, era sempre assim:
___ Uma pinga com Cynar que é pra ter um bom paladar”, acompanhado da indefectível: ___ “vou tomar uma pingota e depois .... ... uma (pausa) vergamota”.

Invariavelmente, o assunto debandava para o melhor time do mundo: o Mengo, é claro...
E, quando alguém discordava, e sempre tinha alguém a discordar, mesmo que fosse só para ter o contraditório, porque sabíamos o que virá a seguir, o bar imediatamente ficava em silêncio para ouvir o xingamento geral que será alvo aquele “bocó “que ousava dizer que o Flamengo não era aquilo tudo, ou, então, que o Zico era apenas um bom jogador. Pronto, o circo estava formado, as gargalhadas serão ouvidas no ponto de táxi, em frente do bar, fazendo com que os taxistas de plantão viessem acompanhar os comentários que muitas vezes eram acompanhados de lágrimas, mas de tanto rir.

Já sabíamos de cor o rumo da conversa, mas, como enredo de um grande espetáculo, a conversa tinha que ocorrer. Alguns momentos depois, invariavelmente, lá estava o baixinho, entroncado, sentado em um dos bancos do balcão, tendo sua perna direita esticada no banco, ao lado, que era para descansar aquela perna, cujo joelho estava sempre dolorido, certamente devido às constantes “ameaçadas” que executava durante as partidas de futebol, e, assim, dizia ele: ___ “quando eu ameaço ninguém vem em mim”, e, então, brincávamos que a diretoria do Clube Pinheiros iria suspendê-lo por estragar a grama do campo de tanto arrancá-la, nas ameaçadas.

Dali a pouco tudo virava festa, muitas personalidades do bar se faziam presentes ao redor daquelas mesas, que nunca entendíamos porque tinham os pés cerrados, mais pareciam mesas de criança, o que penso, hoje, ser verdade, pois não passávamos de crianças em corpos de adultos, tamanha era a alegria que sentíamos em coisas tão simples.
De repente, EL VIEJO, como gostava de ser chamado e se auto-intitulava, deixava aquele acadêmico recinto e partia para uma rápida passada na sua casa, para, imaginávamos, fazer uma presença com a amada, Dona Iraci, a quem devota verdadeira idolatria, porém tínhamos dúvida se não era para conseguir autorização para um período extraordinário.

Pouco tempo depois, estava de volta o Udir e ainda mais alegre ficava o estabelecimento quando alguém provocava: ___ e o rock sai, ou não sai? Depois de alguns momentos em que relutava e fazia charme, começava a preparação, a qual se iniciava puxando para frente o vasto cabelo, sempre bem aparado, de cor preta, sem tintura e com o inseparável Glostora, fazia do balcão seu piano e executava a performance, mista de Elvis Presley e Bill Haley & His Comets, batendo seus dedos fortes nas teclas imaginárias do seu piano, também imaginário, que estaria sobre o balcão.

Na sequência vinha o samba de breque, o qual que dizia e era cantado, assim:
ALÔ, ALÔ 557
É VOCE ELIZABETH,
HOJE EU QUERO LHE FALAR:
NÃO SEI SE AINDA TENHO
AQUELA VELHA INTIMIDADE,
NÃO SEI SE AINDA POSSO
LHE CHAMAR DE MEU AMOR,
TALVEZ MINHA CONVERSA
NÃO SEJA TÂO DISTINTA,
SOU EU BARÚ, BOA PINTA".
                                                          Carlos Roberto Segatto



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