OS RIOS DA MINHA INFÂNCIA

Em memória aos indígenas que aqui habitavam no início dos anos 1970

Por Eduardo Waack *

Foi quando percebi que os índios morreriam. À época da minha infância em Pato Branco, havia os bugres, algumas poucas pessoas alcoolizadas, em estado de grande carência econômica e afetiva, que sobreviviam na beira do que restava da outrora exuberante floresta paranaense. O local era um misto de depósito de lixo e palco diário de atrocidades, um perigo para os olhos da "ingênua" população. O que os índios faziam ali? Por que não possuíam casas e roupas limpas como o restante dos pato-branquenses? Eram os Kaingang com certeza os únicos favelados da cidade, estrangeiros em sua própria terra. Pedindo jornal velho e bebidas fortes, vendendo cestos de vime. Arrastavam-se por vezes muitas vezes na sarjeta imunda da sujeira branca: senhores, agora escravos; puros, na história. Montezumas, Raonis, Nheçus, Macunaímas trucidados. Mulheres vulgarizadas, a vida um contínuo implorar e fugir, ceder, recuar. E os únicos favelados da cidade, ironia, eram os primeiros a direito ter sobre a propriedade. Primeiros, porque todos têm o direito à terra, os seres que a transformam e se exercitam. Primeiros por merecimento, coabitaram com outras raças a América Latina e não a destruíram: aprenderam.


O ciclo da natureza é lento e evoca calma. É certo, e bendiz a alma. Os animais têm o passo e a vista em comunhão, o pensamento é o minuto sincronizado com leis gnósticas, cultos astrais, a sobreposição do instinto à ganância. Banhos de rio eram ainda frequentes, naqueles dias... Hoje, três décadas após é possível contar nos dedos de uma única mão os mananciais não poluídos que restam. Não confundam com os diversos esgotos e canais de morte líquida, veneno industrial incólume que roda poraí, jaspion incontrolável, frutos inconvenientes de um progresso discutível e excludente. Suas moradias eram barracos de plástico e papelão. Caixas de manzanas importadas do país vizinho. Triste vê-los lá, acossados, e a meus olhos de menino: misteriosos. Vez por outra, algum aparecia morto, vítima de pistoleiros urbanos, ao relento, coberto da geada de um árduo inverno. Esse crime ficava ali para aviso. E não mais que trinta os vivos, povo que nem chorava a morte de um outro filho, oferecido em sacrifício. 

Eles eram os bugres, não tinham direito a nada. Andando pelas ruas, constantemente apedrejados, sabia-os muito bem acalmar, a polícia, quando de porres aliviadores. Quando um deus animal baixa sobre cabeças desesperadas. Descalços, mas pisando a lavra transmissora do vírus civilizatório, bandeirante, conquistador e opressor. Famintos e revirando a lata de lixo dos canteiros de obras. Alimentados de sobras, as sobras da sobra. Comida de urubu, ainda que urubu-rei. Tiro ao alvo de desavisados, atrevidos invasores. Bêbados: bugres. Quem haveria por eles? Esta narrativa é toda no passado, passado recente: presente. Neste país em que os políticos são fazendeiros, industriais ou charlatões, corrompidos e corruptores, embora a grande maioria sequer importe-se com isso. Este pouco dito acontece no Brasil atual e desde a época dos colonizadores. Os povos indígenas, assim como diversas minorias, foram sugados e discriminados, nocauteados.

Ultimamente está na moda a expressão Direitos Humanos, e nunca houve tanto desrespeito ao homem. Nativos de todos os cantos do planeta foram brutalmente exterminados, negociados, e colocá-los somente nas páginas amareladas dos livros de história é uma situação um tanto quanto irreal, é pactuar com a carnificina, acobertar o que jamais deve ser ocultado. História que foi escrita por mercantilistas e mercenários... Quem dará voz aos vencidos? Este é um pequeno e insignificante problema que só acabará quando os povos indígenas forem totalmente anulados e aniquilados. Ou quando as cabeças pensantes começarem a despertar e se posicionar política, humana, logicamente com os fracos e oprimidos. O seu vizinho. Nós mesmos. Não idealizando a pobreza, mas estimulando sua libertação, que virá simultânea a um amor geral e correspondido: amor universal. Reconhecendo no passado a causa do presente, e no presente o futuro. Fruturo, o resultado: fruto maduro. 

Da última vez que visitei Pato Branco a mata já não existia, a cidade crescera. Ninguém sabia dizer dos índios, ora tristes bugres. Com certeza morreram, ou vagam doentes e sujos nômades seus descendentes pelas estradas poeirentas do Sul. Podem estar confinados em apertadas reservas, sem estímulos, tentando mais uma vez o suicídio. Ou acampados à beira de uma rodovia. Não lhes deram nenhuma chance de reação; usurpados até a enésima gota fictícia da medula. Mas não pensem que os índios brasileiros se extinguiram. Mesmo que leis capengas e governantes inescrupulosos furtem ao povo a possibilidade de crescimento, ele teima e insiste, se organiza e resiste!


* Eduardo Waacké escritor e jornalista, autor de “Canções do Front”, poemas, 1986.

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