Uma PAIXÃO por CULTURA


José Maria foi apresentado para a plateia. Ele abriu com as seguintes palavras:

"Vivemos numa atmosfera de total escravidão mental. Culpa da indústria cultural, “com sua Shakiras, Big Brothers, axés, programas de TV e filmes idiotizantes” Sua metralhadora verbal se voltou também contra o “pedantismo administrado por guialdas universitárias” que nada fazem senão fechar-se num discurso corporativo e arrogante, longe do ar puro da verdadeira e completa formação do indivíduo.


“Vivemos sobre as pressões do ego, do sexo e da sociedade; nesse mundo rápido, desorientador, caótico e sufocante, em que prevalece a idolatria do eu, o isolamento e a massificação, temos que buscar saídas, e a alta cultura está aí para nos ajudar”.

Explicou que a chamada cultura popular nada mais é do que a cultura de massa, com as seguintes características: imitação formal e dentro dos gêneros, o uso de fórmulas estereotipadas em detrimento da subjetividade de personagens desenvolvidos; estímulos instantâneos às custas da reflexão; respostas emocionais superficiais (unidimensionais).

Isso tudo faz com que as músicas se pareçam muito, sendo criadas para tocar nas rádios até o público enjoar; que os filmes sejam homogêneos e efêmeros; e, na TV faz com que cidadãos comuns se sujeitem a rituais de humilhação e exploração, num contrato em que se troca o auto-respeito por dinheiro.

José Maria concluiu dizendo que a solução é uma cultura de real reflexão e profundidade, de valor intínseco, sem artefatos destinados à venda no mercado.

Para ele, não há meio-termo: somente a alta cultura é cultura. O resto não pode ser comparado a ela. Algumas manifestações populares são aceitáveis, mas a maioria é condenável. 

A alta cultura é pura e só está de pé até hoje, porque existem aqueles que a defendem da mistura e da pasteurização. A massa se alimenta com o que há de pior em cultura, o que há de mais medíocre, embora reconhecível e fácil.

Nem mesmo a arte popular escapou de José Maria. São esforços muitas vezes sinceros, mas sem a elaboração profunda e penetrante da verdadeira arte.

O Brasil, segundo ele, deve mudar seus paradigmas para criar uma verdadeira inclinação para a cultura, iniciando pelas escolas, que devem ter um ambiente dedicado às artes, pinturas, música clássica, escultura, etc.

Procurem a luz das artes e da leitura, jovens! Ela é que vai iluminar seu próximo passo! Tenham desprezo pelo fácil e construam se caráter longe do mundo da banalidade, das celebridades e suas intimidades descartáveis, das falsas músicas, filmes e livros que anestesiam, em vez de despertar, as mentes.

Estamos numa encruzilhada decisiva: a verdadeira cultura traz uma certa dose de sofrimento, mas recompensa. Ela é a luz que fará você conhecer não somente o que está à sua volta, mas principalmente a si mesmo.

E não há melhor retorno que esse. Vale a pena! Acreditem em mim. Muito obrigado”.

*Do livro: Uma Paixão por Cultura – de Carlos Eduardo Paletta Guedes.
 Editora Fundamento.

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