RELEMBRANDO MEUS TEMPOS DE ESCOTEIRO

No início da década de 1970, em plena contracultura e movimento hippie, a juventude pato branquense era bombardeada noite e dia numa apologia contra as drogas. Inúmeras palestras nas escolas, sermões na igreja, e até o poeta-jornalista Neimar de Barros aqui lançou seus livros. Exemplos é que não faltavam. Tínhamos muito medo de cair no vício e nos tornar “boleteiros”.

Este foi um dos motivos de me tornar escoteiro, ingressando no Grupo de Escoteiros Coroados, em Pato Branco (PR), no ano de 1974. Os ensinamentos de Baden Powell eram coerentes, e a vida campestre nos atraia. Qual não foi minha surpresa ao encontrar, logo na primeira reunião, alguns dos temíveis bad boys que tanto assustavam os jovens formatados pelo sistema... E eles eram legais. Tornamo-nos amigos. De tanto fugir, encontrei.

Nosso Grupo era bem unido, e seguia uma hierarquia mais ou menos rígida. A gurizada novata foi reunida na Patrulha Touro, cujo grito de guerra ecoava nas atividades: “Jararaca deslizando pela mata, uma patrulha se destaca: Patrulha Touro — sempre alerta”. Vivíamos uma bagunça organizada. Nos acampamentos, sempre vítimas dos mais velhos, e com saudades de casa. Na barraca, esvaziar latas de leite condensado e pacotes de bolacha. Campeonato de peidos e de bravatas...

Ao redor da fogueira, declamar poemas, narrar causos históricos, cantar e contar piadas. Chorar e sorrir, sentindo-se integrado à natureza. Montando guarda de madrugada, enxergar uma assombração atrás de cada árvore. Tomar banho de rio, improvisar cozinha, fogão, despensa. A Patrulha Touro tinha como monitor o Clairton, que algum tempo depois nos deixou. Então fui alçado à liderança. Faziam parte da galera, entre outros, o Gerson Silvério, Robinson Ampessam, João David, o Pozza e o Durval Sena Silva (que hoje reside em Ilhéus, na Bahia).

Numa ocasião, após discutir tolamente com o saudoso Gerson, no Colégio das Irmãs, eu o encaminhei à Corte de Honra. Levou um mês de suspensão.Logo a seguir, abandonou o escotismo. Incomodado com a perda do amigo querido, e arrependido de haver provocado sua saída, deixei pouco tempo depois o Grupo, no final de 1976. Guardo algumas relíquias, como a primeira boina, o Manual do Escoteiro, e diversas fotografias desbotadas.

Passadas quatro décadas, avalio a dimensão de tudo o que vivemos, compartilhamos e enfrentamos. As descobertas, as lições e o lirismo das madrugadas de inverno, quando o frio deixava o chão branco com mais uma geada, e nos exercitávamos com galhardia, sem medo da vida que se descortinava. As fotos que ilustram esta matéria são o registro de um acampamento realizado em abril de 1975, durante a Cerimônia da Promessa. Em tempo: este texto é dedicado à memória de Gerson Marcos Silvério, falecido em 1993. Gerson era filho de Agostino e Siti da Silva Silvério — dona Siti, professora e líder religiosa, foi a primeira mulher vereadora em Pato Branco, pelo MDB, no auge da ditadura militar.

Eduardo Waack
Escritor e jornalista, edita O Boêmio (cultura popular independente & evolucionária) há 27 anos.

* Na foto Eduardo e sua mãe Rosa Maria Calegari de Almeida (com as mãos sobre ele).

**O chefe escoteiro da direita era com certeza, Clério Giasson, amigo espetacular, que nunca mais tivemos notícia.

Um comentário:

João Paulo Frai disse...

Fantástico! Sinceramente, me agrada muito ler as histórias daquele tempo. Como chefe no grupo escoteiro Coroados, percebo o passado do nosso grupo como um mistério que o tempo e as chamas de alguns incêndios trataram de esconder. Mas aí surgem uns textos como este e percebemos quão bela é a nossa história. Só tenho a agradecer pela estas revelações.

Postar um comentário